O jornalismo literario na estréia do Ruído Visual (dez. 2003)

O jornalismo literário, vertente do jornalismo que une a missão de informar oriunda do jornalismo com o vocabulário amplo e a estrutura narrativa da literatura, foi o tema da primeira edição do programa Ruído Visual (2003-2004).

Os jornalistas Paulo Pelicano (1952-2009) e Kleber Gutierrez foram até a Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA-USP) conversar com o professor  Edvaldo Pereira Lima e com alunos da pós-graduação Stricto Sensu (mestrado e doutorado) em jornalismo literário da instituição.

O programa Ruído Visual e o jornalismo literário:

Foi um programa produzido entre dezembro de 2003 e dezembro de 2004 pelos jornalistas Paulo Pelicano (1952-2009) e Kleber Gutierrez. O programa foi pensado sob inspiração do jornalismo literário e abordou, a cada edição, diferentes aspectos da comunicação (como meio, como mensagem e quanto a aplicação da comunicação em diferentes áreas): além do jornalismo literário, Kleber e Paulo abordaram a Filosofia da Comunicação (Filocom), Teatro, Poesia, Turismo, Eventos, entre outros.

O programa foi uma permuta entre a Art Haus TV, a newsletter “Comunicadores” (boletim diário editado pelo Paulo Pelicano até 2007) e a assessoria de comunicação “Comunicação Ativa” (de Kleber Gutierrez). Da permuta ficou a amizade com os produtores.

Como surgiu o programa:

Em agosto de 2003 um grupo de 3 radialistas recém-formados, dentre os quais eu fazia parte, resolveu colocar no ar uma webTv.

A TV foi batizada com o nome da produtora criada pelo grupo: Art Haus (‘Casa da Arte’ em livre associação do inglês Art e do alemão Haus). O modelo de programação escolhido na época foi o on-demand: os programas seriam gravados e a programação seria atualizada diariamente à meia-noite.

Em época de acesso discado e parcos recursos financeiros, o grupo ousou em colocar a webTV no ar, criada a partir de a partir de um projeto recusado por um cliente.

Na época (agosto de 2003) consegui uma nota sobre nosso lançamento no portal Comunique-se (procurei o link da matéria, mas infelizmente o Comunique-se mudou a estrutura e não localizei o conteúdo – tenho cópia dela impresso e qualquer dia publico aqui). Na matéria comentávamos sobre nossos diferenciais e abriamos espaço para parcerias, em especial na parte de infra-estrutura para a TV.

Um jornalista leu a matéria no portal Comunique-se e encaminhou para um amigo que dirigia um servidor de hospedagem na região do Itaim Bibi, em São Paulo. Fizemos uma reunião na sede do servidor, mas não chegamos a um acordo. Nesta reunião dois fatos marcaram nossa história: o diretor do servidor associou nossa história de pioneirismo e parcos recursos à da criação da CNN e recomendou a leitura do livro “CNN, a história real” (que resenhei aqui no Portal em março passado) e comentou que chegou até nós pois a matéria do Comunique-se foi replicada pela Newsletter Comunicadores, do Paulo Pelicano.

Ao encerrar a reunião, pedi para receber a Newsletter. O jornalista que fez a intermediação (a quem não cheguei a conhecer até hoje, apesar de lembrar o nome e dele também ter sido amigo do Pelicano) passou meu e-mail ao Paulo e passei a receber a newsletter.

Tivemos um problema técnico no dia da inauguração da TV (31/08/2003) e optamos por lança-la uma semana depois, no feriado de 7 de setembro.
Na equipe original, além dos 3 sócios, havia um jornalista (Ricardo Chiessi), uma publicitária (Glaucia Kiko), uma apresentadora que nunca chegou de fato a trabalhar conosco (amiga de um dos sócios) e um estagiário de design (Rodolfo). Com exceção do estagiário e da apresentadora que nunca estreou, todos eram egressos da mesma turma de comunicação da Universidade São Judas Tadeu.

Dois meses depois da inauguração, Ricardo optou em sair da equipe pois não conseguiria conciliar com outro emprego que arrumou. Eu já recebia a newsletter Comunicadores e gostava do estilo irônico do Paulo escrever. A newsletter aprofundava alguns assuntos e vi que seria viável pensarmos em um programa baseado no conteúdo dela.

Encaminhei uma cópia da Newsletter ao Ricardo, sugerindo como última pauta dele que fizéssemos uma entrevista com o Paulo. Citei que tinha interesse em produzir um programa com ele futuramente.

Mas ao invés de encaminhar o email, eu cliquei em responder. Logo, o Paulo recebeu minha sugestão de gravação e respondeu: “Gravação? Comigo? Tô dentro”

A gravação nunca saiu. Não fizemos a entrevista, mas aproveitei para reforçar o convite da parceria e marcar uma reunião.

Fizemos a reunião numa sexta-feira, véspera do feriado de 15 de novembro. Paulo e Kleber foram a casa dos meus pais, onde eu e um dos sócios da Art Haus os esperavam para uma reunião. Acertamos uma permuta: cederíamos o espaço na TV e a possibilidade de editarmos. Havendo patrocínio (o que nunca houve), dividiriamos a receita.

Duas semanas depois o primeiro programa estava gravado e pronto para ser editado.

Bastidores da edição:

A edição do Ruído Visual era feita pelo Paulo (texto) e por mim (imagem). A primeira edição demorou cerca de 5 horas, mesmo com o programa tendo 20 minutos de edição final.

A edição demorou as cercas de cinco horas pois todo o material gravado foi passado para o computador. Acertamos que a partir da próxima edição a gravação seria entregue antes e com a decupagem feita previamente.

O vídeo foi gravado com uma câmera VHS-C (VHS compacta). A Art Haus usava na época o formato 8 mm da Sony (a diferença de qualidade de imagem entre a gravação com a radialista Eliane Schuff e o Ruído Visual se dá pelos equipamentos diferentes entre as produções dos dois núcleos da TV).

A criação da vinheta do programa:

Na semana de estréia do programa fechamos a vinheta de abertura e encerramento. Usamos fotos do Paulo e do Kleber enquanto crianças e na atualidade. Aparece um terceiro homem na vinheta: foi uma pequena maldade que eu fiz e que o Paulo estava ciente – e aceitou. A vinheta foi produzida no After Effects.

A trilha sonora brinca com a palavra “ruído“. Misturamos uma ou duas músicas (não me lembro ao certo) e invertemos (ou seja, está tocada do fim para o começo). O “waveform” que aparece ao fundo (ondas sonoras) é o da música da vinheta.

Ficha Técnica:

Roteiro, Produção, Imagem e Apresentação: Kleber Gutierrez e Paulo Pelicano.

Edição de Texto: Paulo Pelicano

Vinheta e Edição: Fernando Mariano

Para saber mais sobre jornalismo literário:

Indicamos os seguintes artigos:

Para compreender o jornalismo literário – Observatório da Imprensa

PDF: Jornalismo Literário – Revistas USP

PDF: Jornalismo Literário como gênero e conceito (artigo acadêmico de Felipe Pena – Intercom)

Jornalismo Literário – Livro de Felipe Pena (Amazon)