Susumo Harada: da dor à arte.

Susumo Harada: da dor à arte.

A trajetória de Susumo Harada é um testemunho da força transformadora da arte. Após sofrer um grave acidente de trabalho, caindo de uma escada de oito metros, Susumo viu sua vida mudar drasticamente. Diante da dor e do afastamento forçado do cotidiano, decidiu ressignificar a própria existência, abraçando a arte como forma de sobrevivência, expressão e propósito. Foi assim que nasceu um artista plástico multifacetado, que viria a contribuir de maneira marcante para a cultura e memória histórica de Itapevi e do Brasil.

Nascido em Barueri em 1938, Susumo Harada passou a infância em contato com a natureza no interior de São Paulo, vivência que mais tarde influenciaria suas gravuras com imagens de bambuzais e paisagens rurais. Mas foi na convalescença, durante o repouso pós-acidente, que ele descobriu por acaso uma revista antiga que ensinava técnicas de xilogravura. A partir dali, começou a experimentar com a madeira e a criar suas primeiras obras, dando início a uma jornada artística singular.

Susumo Harada é o entrevistado da oitava edição do programa “Papo com Marcos Torquato“, produção da TeleObjetiva em parceria com o jornalista Marcos Torquato.

A origem do artista Susumo Harada: inspiração, técnica e primeiros passos

A entrada de Susumo Harada no mundo da arte foi marcada por autodidatismo e sensibilidade. Sem experiência prévia em desenho ou pintura, ele encontrou na xilogravura um meio acessível e expressivo para canalizar suas emoções e ideias. Suas primeiras criações retratavam objetos cotidianos como uma botina, cordas e pombos vistos do alto — todos elementos que ganhavam sentido simbólico em suas mãos.

O incentivo veio do pintor e professor Tomasig Cuno, que ao ver suas primeiras gravuras, disse: “Vai que dá”. Com essa validação, Susumo aprofundou-se na técnica, aperfeiçoando seu estilo e iniciando um percurso que logo o levaria a participar de exposições em diversos municípios. Nos anos 1990, chegou a expor no Japão, custeando do próprio bolso a viagem e a produção, numa demonstração de determinação e crença na própria arte.

Entre suas obras mais marcantes estão as séries de “cintos de castidade”, inspiradas em pesquisas sobre o período medieval, que abordam com crítica e ironia a repressão histórica às mulheres. Outra produção impactante é a das “cabeças”, esculturas que representam figuras humanas carregadas de conceito e metáforas — como a cabeça com cabresto, que simboliza a ignorância, ou a que “cheira mal”, em referência à corrupção e à ausência de ética.

Susumo Harada: da dor à arte. Papo com Marcos Torquato, ed. #8

Contribuições culturais e a pesquisa histórica sobre o Caminho do Peabiru

Além do trabalho como artista plástico, Susumo Harada atuou intensamente na promoção da cultura local. Por 11 anos, foi agente cultural na Prefeitura de Itapevi e liderou a criação da Pinacoteca Municipal, reunindo mais de 100 obras doadas por artistas parceiros. Infelizmente, após sua saída, a Pinacoteca foi extinta, e as obras hoje estão dispersas em repartições públicas. Ainda assim, seu legado permanece vivo na memória de quem acompanhou seu empenho em valorizar e preservar a produção artística local.

Outro aspecto essencial de sua trajetória é sua pesquisa dedicada ao Caminho do Peabiru, uma antiga rota indígena que ligava o litoral ao interior do continente sul-americano. Harada dedicou 25 anos à investigação do trajeto, percorrendo regiões a pé e de moto, estudando mapas, documentos históricos e livros raros. Com base em suas descobertas, defende a tese de que o explorador Aleixo Garcia não teria entrado por Santa Catarina, como tradicionalmente se acredita, mas sim pela região de Itapevi.

Ao todo, escreveu dois livros sobre o Peabiru e prepara outros dois volumes. Para Susumo, o apagamento de locais como Itaqui por mais de 300 anos, resultado de proibições decretadas por figuras coloniais como Tomé de Souza, contribuiu para distorções históricas que ele tenta corrigir com suas pesquisas.

Legado e sensibilidade de um artista incansável

A história de Susumo Harada é uma aula sobre sensibilidade, perseverança e compromisso com a arte e a verdade. Ele sobreviveu de sua arte por mais de quatro décadas, transformando experiências pessoais, dores e descobertas em obras que provocam reflexão e encantamento. Escreve todos os seus livros à mão, sem o uso de computadores, mantendo uma relação direta e quase artesanal com o conhecimento.

Seja por meio das gravuras, esculturas ou livros, Harada nos convida a enxergar o mundo com mais profundidade — e a reconhecer que é possível renascer, mesmo depois de uma queda, quando se encontra um propósito verdadeiro. A arte, para ele, não foi apenas uma ocupação: foi salvação, linguagem e herança. E é essa herança que permanece, inspirando novos artistas, pesquisadores e amantes da cultura.

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