Na nona edição da série Biscoito Raro, o palco é inteiramente de Ruthe London, uma intérprete singular que une o blues, a bossa nova, o jazz e a música brasileira em um repertório repleto de personalidade. Gravado no dia 5 de outubro de 2004, no teatro do Hotel Crowne Plaza, este episódio é considerado — por mim, editor do programa — como a melhor edição da série. E não por acaso.
Com uma entrevista franca e um show ao vivo marcante, Ruthe London compartilha com o público sua trajetória, influências e a estética que escolheu seguir ao longo de sua carreira. A artista não se prende a rótulos. Seu blues é livre, cheio de nuances, e serve como trilha para uma estrada sonora onde a sofisticação do jazz e a suavidade da bossa nova se encontram para criar o que ela chama de “swing brasileiro”.
Uma estrada musical pavimentada com blues, bossa e jazz
Durante a conversa, Ruthe London compartilha que nunca planejou se tornar cantora. A música, segundo ela, “sempre esteve ali”, naturalmente integrada ao seu cotidiano. Começou se apresentando em bares, como tantos outros músicos brasileiros, e construiu uma carreira sólida ao longo de 15 anos até a gravação do programa, em 2004.
Seu nome artístico é uma homenagem direta à cantora norte-americana Julie London, referência estética e vocal que a acompanhou desde cedo. Essa escolha reflete também seu apreço por vozes femininas elegantes e por uma tradição musical em que a canção é conduzida com charme, controle e emoção.
Ao falar sobre o blues, Ruthe não reivindica ortodoxia. Pelo contrário: ela diz claramente que seu blues não é tradicional, nem se alinha com uma MPB pura. Seu trabalho é uma fusão que percorre uma estrada onde o blues é o caminho, a bossa nova fornece o clima, o jazz empresta o jeito e o swing brasileiro é o resultado final. É essa mistura que faz de Ruthe London uma artista rara e difícil de categorizar.
Seus arranjos respeitam o tempo da música e suas interpretações têm uma força serena, que transmite maturidade e sensibilidade. No palco, ela se mostra contida e expressiva ao mesmo tempo — domínio de quem conhece o próprio repertório e tem confiança naquilo que entrega.
O show gravado no Teatro do Crowne Plaza (teatro e hotel que existiram até maio de 2008), traduz com fidelidade essa proposta estética. O repertório é refinado, o acompanhamento é preciso e a presença de palco de Ruthe é cativante. Sua voz é conduzida por linhas melódicas que combinam intimismo, intensidade e elegância — uma tríade que sintetiza sua personalidade musical.
Ruthe London no Biscoito Raro - Ep.9
Ruthe London e o blues em território brasileiro
Embora o blues seja um gênero musical originado no sul dos Estados Unidos no final do século XIX, sua adaptação ao Brasil ganhou contornos próprios. Artistas como Celso Blues Boy, André Christovam e Nuno Mindelis ajudaram a estabelecer uma cena nacional de blues com identidade própria. Porém, ainda hoje, o blues permanece relativamente marginal nas grandes mídias.
É nesse contexto que a proposta de Ruthe London se destaca. Ela não tenta “tropicalizar” o blues, mas tampouco o reproduz com fidelidade rígida à tradição americana. Seu trabalho busca uma zona de intersecção entre o blues e a canção brasileira, com forte apelo melódico e riqueza rítmica.
Ruthe não está sozinha nessa trilha. Há paralelos possíveis com nomes como Tânia Maria, Joyce Moreno, Rosa Passos e Leila Pinheiro, cantoras que também experimentaram fusões entre a música brasileira e gêneros internacionais, sem abrir mão de suas raízes.
Mas Ruthe London caminha em outro compasso: o compasso da delicadeza, da pausa pensada, do arranjo esculpido. Sua música não quer ser imediata. Ela exige escuta, convida à contemplação e recompensa o ouvinte com interpretações cheias de camadas.
Ao trazer sua história ao Biscoito Raro, Ruthe London reafirma o espaço que o blues — em sua versão abrasileirada e autoral — pode ocupar na diversidade sonora do Brasil.
Um encontro raro: Ruthe London no acervo da Art Haus TV
A entrevista e o show com Ruthe London foram gravados para a série Biscoito Raro, um dos projetos mais emblemáticos da Art Haus TV, canal de webTV criado em 2003. O programa Biscoito Raro foi criado em 2004 por Paulo Pelicano (1952–2009) e Antonio Franco. O programa tinha como missão apresentar ao público, artistas cuja qualidade artística superava qualquer critério de popularidade.
Com apenas 10 edições, Biscoito Raro tornou-se um registro histórico importante da produção musical independente dos anos 2000. A participação de Ruthe London é uma das mais marcantes da série, tanto pela qualidade da performance quanto pela densidade do conteúdo compartilhado na entrevista.
Hoje, esse episódio faz parte do acervo da produtora TeleObjetiva, que se dedica ao resgate, digitalização e disponibilização do conteúdo original da Art Haus TV. Esse trabalho de recuperação tem como objetivo manter viva a memória de uma produção audiovisual feita com sensibilidade, paixão e compromisso cultural.
O episódio de Ruthe London é, sem dúvida, uma joia dentro desse acervo. Um encontro raro com uma artista que escolheu o blues como ponto de partida, mas que fez dele uma trilha para explorar o que há de mais sofisticado e brasileiro na música contemporânea.
Professor universitário desde 2005, é Mestre em Comunicação e Especialista em Criação Visual e Multimídia. Trabalhou em importantes faculdades e colégios técnicos de São Paulo e Santo André. Radialista de formação, teve passagem por emissoras de TV e Produtoras de TV e Internet. Durante quase 10 anos, coordenou o curso de Rádio, TV e Internet FAPCOM. Também coordenou os cursos de Produção Audiovisual e Fotografia (durante 4 anos) e de Multimídia (durante 2 anos) da mesma instituição. Antes, coordenou o curso técnico em Multimídia do Liceu de Artes e Ofícios (2009-2010). Atualmente é diretor-executivo da TeleObjetiva e professor da FAPCOM.