Excelsior e a Máquina do Som
A Máquina do Som marcou uma das fases mais ousadas e inovadoras da radiodifusão nacional. Ao assumir uma linguagem ágil, musical e tecnologicamente avançada na tradicional frequência 780 kHz AM, a Rádio Excelsior de São Paulo transformou padrões, antecipou tendências e redefiniu o modo como o público jovem se relacionava com o rádio. Sua trajetória, iniciada em 1934, atravessa diferentes momentos históricos da comunicação brasileira, passando pelo glamour dos auditórios, pela consolidação técnica da chamada “Voz de Bronze” e culminando na transição que daria origem à CBN, uma das maiores redes de jornalismo do país.
Rádio Excelsior PRG-9: a origens da Voz querida da cidade
Fundada em novembro de 1934 por Paulo Machado de Carvalho, a Rádio Excelsior de São Paulo, prefixo PRG-9, nasceu em um período em que o rádio era o principal meio de comunicação de massa no Brasil. Inserida no grupo Emissoras Unidas, a emissora destacou-se desde cedo pela excelência técnica e por uma programação diversificada, que combinava música, informação e entretenimento.
Naquele momento, o rádio era sinônimo de encontro coletivo. Auditórios lotados, programas de calouros, radionovelas e transmissões esportivas moldavam o cotidiano de milhares de famílias paulistas. A Excelsior, ao lado de outras grandes emissoras da capital, ajudou a consolidar São Paulo como um dos principais polos radiofônicos do país.
Em 1953, a emissora foi adquirida por Victor Costa, fundador da Organização Victor Costa (OVC). Sob sua gestão, a rádio consolidou um de seus maiores símbolos: o slogan “A Voz de Bronze”. A expressão fazia referência direta à potência e à clareza de seus transmissores. Em uma época em que a qualidade técnica variava muito entre as emissoras, a Excelsior se destacava pelo som encorpado e imponente, capaz de alcançar longas distâncias com nitidez.
A “Voz de Bronze” não era apenas um recurso publicitário. Era uma experiência sonora. O ouvinte reconhecia a marca da emissora pelo impacto do áudio, pela presença forte das locuções e pela qualidade das transmissões musicais e esportivas.
Com a morte de Victor Costa, em meados da década de 1960, o espólio da Organização Victor Costa foi vendido às Organizações Globo. A partir de 1966/67, a Rádio Excelsior passou a integrar o Sistema Globo de Rádio, iniciando uma nova etapa que culminaria em sua fase mais revolucionária.
Excelsior, a Máquina do Som: a FM antes da FM
A partir de 1968, a emissora passou por uma profunda reformulação editorial e estética. Nascia ali a fase conhecida como Excelsior, a Máquina do Som. Mais do que um novo slogan, tratava-se de uma reinvenção completa da linguagem radiofônica em AM.
Em um período em que a maioria das rádios AM concentrava sua programação em programas de conversas, programas de auditório, esportes e radionovelas, a Excelsior apostou em um modelo até então inexistente no Brasil: menos fala, mais música, ritmo acelerado e uma plástica sonora sofisticada. Era, em essência, uma FM no AM.
A Máquina do Som introduziu no dial paulista uma proposta voltada diretamente ao público jovem e ao jovem adulto. Antes mesmo da consolidação das rádios FM musicais no Brasil, a Excelsior já falava a linguagem da juventude urbana, conectada às tendências internacionais e aos lançamentos da indústria fonográfica.
Antônio Celso e a revolução da locução
O grande arquiteto dessa transformação foi o locutor e programador Antônio Celso. Inspirado nas rádios norte-americanas do formato Top 40, ele trouxe um estilo de locução rápido, vibrante e envolvente. A fala era dinâmica, com intervenções curtas, energéticas e estrategicamente posicionadas entre as músicas.
Antônio Celso imprimiu à Máquina do Som um ritmo quase hipnótico. O ouvinte precisava permanecer atento para não perder o próximo sucesso. A sensação era de movimento contínuo, como se a programação estivesse sempre acelerando.
Ao seu lado, nomes como Julinho Mazzei, Serginho Leite, Newton Prado e Ronaldo Neves também contribuíram para consolidar a identidade jovem da emissora. Cada locutor trazia personalidade própria, mas todos compartilhavam o mesmo compromisso com a agilidade e com a modernidade da linguagem.
Programa "Tirando o Pó". sobre a Rádio Excelsior - Guia dos Curiosos.
A trilha sonora de uma geração
Durante os anos 1970, a Máquina do Som tornou-se referência para quem buscava os grandes hits internacionais. Se uma música estava no topo da Billboard nos Estados Unidos, era praticamente certo que ganharia destaque na programação da Excelsior.
A emissora foi um dos principais portos da disco music e do pop rock em São Paulo. Em plena era das pistas iluminadas e das coreografias sincronizadas, a rádio ajudava a definir o repertório que seria tocado nos bailes e clubes da cidade.
A parceria com equipes de som que animavam festas e eventos reforçava essa influência. A Excelsior não apenas reproduzia tendências; ela ajudava a criá-las. Sua programação funcionava como termômetro do que estava em alta e como vitrine de lançamentos internacionais.
Disco "Excelsior - A máquina do Som"volume 7. Lançado em 1978 pela gravadora Som Livre, com as músicas que tocavam na rádio.
Tecnologia, plástica sonora e identidade marcante
Um dos grandes diferenciais da Máquina do Som era sua excelência técnica. Honrando a tradição da “Voz de Bronze”, a emissora investia nos melhores processadores de áudio disponíveis à época. Mesmo operando em AM, cuja fidelidade é tecnicamente inferior à do FM estéreo, a Excelsior alcançava um som considerado “pesado”, com graves potentes e brilho marcante.
Esse cuidado técnico fazia com que a experiência de escuta fosse diferenciada, seja nos radinhos de pilha, seja nos toca-fitas dos automóveis. A pressão sonora e a equalização criavam uma identidade auditiva inconfundível.
As vinhetas também eram parte fundamental dessa construção. Curtas, impactantes e produzidas com alto padrão, muitas vezes contavam com corais e arranjos que remetiam às grandes rádios de Nova York e Los Angeles. O slogan “Excelsior, a Máquina do Som” era anunciado com imponência, cercado por efeitos sonoros e sintetizadores que reforçavam a ideia de modernidade.
A plástica sonora, termo que define o conjunto de elementos auditivos que compõem a identidade de uma emissora, foi tratada como prioridade estratégica. A rádio compreendeu que o som, em si, era marca.
A transição histórica: do pop ao all news
O auge da Máquina do Som ocorreu entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1980. No entanto, o cenário da radiodifusão começava a mudar. Com o crescimento e a consolidação das rádios FM, o público jovem passou a migrar para o som estéreo, que oferecia maior fidelidade musical.
Gradualmente, a Excelsior foi perdendo espaço nesse segmento. O Sistema Globo de Rádio, atento às transformações do mercado, decidiu apostar em um formato até então inédito no Brasil: o all news, com programação jornalística 24 horas por dia.
Em 30 de setembro de 1991, a Rádio Excelsior AM encerrou suas transmissões musicais. No dia seguinte, 1º de outubro de 1991, a tradicional frequência 780 AM passou a abrigar a CBN São Paulo. A estrutura técnica, o alcance e a tradição da PRG-9 foram fundamentais para que a nova emissora se consolidasse rapidamente.
A CBN, sigla para Central Brasileira de Notícias, tornou-se referência nacional em jornalismo radiofônico. A mudança representou o fim de um ciclo, mas também o início de outro capítulo relevante na história do rádio brasileiro.
O legado permanente da Máquina do Som
Embora a marca Excelsior tenha deixado de ocupar a frequência 780 AM, o legado da Máquina do Som permanece vivo na memória afetiva de milhares de ouvintes. Sua influência pode ser percebida na linguagem das rádios jovens que surgiram nas décadas seguintes, especialmente nas FMs musicais que adotaram locução ágil, playlists dinâmicas e forte identidade sonora.
A Máquina do Som foi mais do que uma fase de sucesso comercial. Ela representou uma ruptura com o modelo tradicional de rádio AM, antecipando tendências que só se consolidariam anos depois. Ao apostar na segmentação jovem, na plástica sofisticada e na excelência técnica, a Excelsior mostrou que o rádio é um meio em constante reinvenção.
A história da Rádio Excelsior de São Paulo é também a história da evolução do rádio no Brasil. Da fundação em 1934 à consolidação da Voz de Bronze, da ousadia estética da Máquina do Som à transição para o jornalismo 24 horas, a emissora soube refletir e, em muitos momentos, liderar as transformações do meio.
A Máquina do Som permanece como símbolo de um período em que criatividade, tecnologia e sensibilidade para entender o público se combinaram de forma exemplar. Ao revisitar essa trajetória, compreendemos que o rádio, mesmo diante de novas plataformas e desafios digitais, continua sendo um espaço privilegiado de experimentação, identidade e conexão emocional.

Produtora de vídeo e conteúdo especializada em produções para o mercado corporativo, a Tele Objetiva está no mercado desde 2012. Dentre seu portfólio de projetos está a produção de conteúdo corporativo para o YouTube, transmissões ao vivo e produção de canais de circuito fechado de TV para empresas, consultórios e escritórios.
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