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36 anos do Plano Collor e a cobertura da TV

36 anos do Plano Collor e a cobertura da TV

36 anos do Plano Collor e a cobertura da TV

Em março de 1990, o Brasil assistia atônito ao anúncio do Plano Collor, um dos mais drásticos e controversos programas de estabilização econômica da história nacional. Lançado em 16 de março, um dia após a posse do então presidente Fernando Collor de Mello, o plano prometia conter uma hiperinflação que chegava a 80% ao mês. Trinta e seis anos depois, revisitar o Plano Collor é também revisitar o papel central desempenhado pela televisão brasileira, especialmente por Rede Globo e Rede Manchete, na construção de uma narrativa de “salvação nacional” que marcou aquele momento.

O contexto do Plano Collor e a aposta em medidas heroicas

No final da década de 1980, o Brasil enfrentava uma das mais graves crises inflacionárias do mundo. A escalada de preços corroía salários diariamente, comprometia contratos e tornava impossível qualquer planejamento financeiro de médio prazo. A sociedade vivia sob o chamado “tigre da inflação”, expressão recorrente nos telejornais da época.

O Plano Collor surgiu como um “choque” para interromper a inércia inflacionária. Seu eixo central foi o confisco de ativos financeiros: depósitos bancários e cadernetas de poupança acima de 50 mil cruzados novos foram bloqueados por 18 meses. O objetivo era reduzir drasticamente a liquidez em circulação, freando o consumo e, por consequência, a alta de preços.

Além do confisco, o plano promoveu a substituição do Cruzado Novo pelo Cruzeiro, congelou preços e salários temporariamente e instituiu o câmbio flutuante. No campo estrutural, inaugurou uma agenda liberal com abertura comercial, privatizações e reforma administrativa, marcando o início do Programa Nacional de Desestatização.

No primeiro momento, a inflação caiu. Mas o impacto social foi devastador. Empresas perderam capital de giro, o desemprego cresceu e a economia mergulhou em recessão. A confiança nas instituições financeiras foi profundamente abalada, fator que contribuiu para o fracasso do plano no médio prazo.

A Rede Globo e o Plano Collor: didatismo e legitimação

A cobertura da Rede Globo teve papel decisivo na recepção inicial do Plano Collor. A emissora já havia desempenhado função relevante na eleição presidencial de 1989, quando Collor venceu Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. Em 1990, manteve uma postura que combinava apoio institucional e esforço pedagógico.

Um dos episódios mais emblemáticos foi a entrevista concedida por Collor nos estúdios da Globo em Brasília, em vez de um pronunciamento tradicional em rede nacional. O formato ao vivo, mediado por jornalistas da emissora, conferiu à comunicação um tom de proximidade e transparência. A mensagem central era a de que o país precisava de um “remédio amargo”, mas inevitável.

Fernando Collor explica o Plano Collor (Entrevista à Globo) 

Os telejornais mobilizaram especialistas e comentaristas para explicar as medidas econômicas. Reforçou-se a ideia de que apenas uma pequena parcela da população — os “5% mais ricos” — seria diretamente afetada pelo bloqueio de recursos. Ao mesmo tempo, a retórica da “caça aos marajás”, marca da campanha de Collor, foi incorporada ao discurso jornalístico, alinhando o plano à promessa de moralização do Estado.

Editorialmente, veículos do mesmo grupo defenderam a abertura econômica e a modernização produtiva. O Plano Collor era apresentado como a porta de entrada para o Brasil no “Primeiro Mundo”, expressão comum na retórica governamental da época.

Jornal Nacional - Anúncio do Plano Collor (16/03/1990) 

Jornal da Globo - Efeitos do Plano Collor 

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Contudo, à medida que a recessão se aprofundava e as denúncias envolvendo Paulo César Farias ganhavam corpo, a narrativa começou a mudar. O desgaste culminaria no processo de impeachment de Collor em 1992, evento que também teve ampla cobertura televisiva e que redefiniu a relação entre imprensa e poder no país.

A Rede Manchete e o entusiasmo ufanista

Se a Globo adotou um tom didático e legitimador, a Rede Manchete foi ainda mais entusiasta na recepção ao Plano Collor. Fundada em 1983 por Adolpho Bloch, a emissora cultivava uma imagem sofisticada e moderna, voltada a um público de maior poder aquisitivo.

Historicamente identificada por críticos como “cortesã do poder”, a Manchete viu em Collor a personificação da juventude e da renovação política. O Jornal da Manchete tratou o lançamento do plano com entusiasmo quase ufanista, enfatizando a coragem do presidente em adotar medidas duras.

A sintonia entre Bloch e o governo era pública. O empresário acreditava que a estabilidade econômica favoreceria seus negócios, que incluíam televisão, revistas e outros empreendimentos. No entanto, o efeito recessivo do Plano Collor atingiu duramente o Grupo Bloch. A restrição de crédito e a retração do mercado publicitário comprometeram as finanças da emissora.

Apresentação do Plano Collor com Zélia Cardoso de Mello - Rede Manchete

Jornal da Manchete – Posse de Collor (15/03/1990) 

Ironicamente, o plano que a Manchete ajudou a legitimar contribuiu para sua própria fragilização. Ao longo da década de 1990, a emissora enfrentou sucessivas crises financeiras até encerrar suas atividades em 1999, sendo substituída pela RedeTV!.

Televisão, narrativa e poder simbólico

A análise da cobertura do Plano Collor pelas duas maiores redes da época revela a força da televisão na construção de consensos. Em um país com altos índices de analfabetismo funcional e com a TV como principal fonte de informação, a narrativa televisiva moldava percepções e expectativas.

A ideia de que o confisco atingiria apenas a elite foi amplamente difundida. Na prática, a paralisação de recursos afetou cadeias produtivas inteiras, pequenos empresários e trabalhadores que dependiam de liquidez para sobreviver. A televisão, ao simplificar o discurso técnico-econômico, contribuiu para a aceitação inicial de uma medida que, dias depois, geraria desespero generalizado.

Do ponto de vista da comunicação, o episódio evidencia como enquadramentos editoriais podem influenciar a leitura de políticas públicas. A Globo buscou legitimar por meio da explicação racional e do discurso modernizante. A Manchete aderiu com entusiasmo, reforçando o imaginário de ruptura com o passado inflacionário.

Três décadas e meia depois, o debate sobre o Plano Collor permanece atual, sobretudo em tempos de instabilidade econômica e polarização política. O caso serve como estudo para profissionais de jornalismo, comunicação e história da mídia interessados em compreender a interação entre imprensa, poder e sociedade.

36 anos depois: memória, mídia e responsabilidade

Ao completar 36 anos, o Plano Collor não é apenas um capítulo da história econômica, mas também um marco na história da televisão brasileira. A cobertura de Globo e Manchete demonstra como a mídia pode atuar tanto como mediadora crítica quanto como legitimadora de decisões governamentais.

Revisitar esse episódio é fundamental para fortalecer a reflexão sobre ética jornalística, pluralidade de vozes e responsabilidade social da imprensa. Em momentos de crise, a tentação de aderir a soluções “heroicas” pode ser grande. Cabe à mídia contextualizar, questionar e oferecer múltiplas perspectivas.

O legado do Plano Collor, portanto, transcende a economia. Ele permanece como alerta sobre os riscos de decisões abruptas e sobre o papel estratégico da comunicação na formação da opinião pública.

Professor universitário desde 2005, é Mestre em Comunicação e Especialista em Criação Visual e Multimídia. Trabalhou em importantes faculdades e colégios técnicos de São Paulo e Santo André. Radialista de formação, teve passagem por emissoras de TV e Produtoras de TV e Internet. Durante quase 10 anos, coordenou o curso de Rádio, TV e Internet FAPCOM. Também coordenou os cursos de Produção Audiovisual e Fotografia (durante 4 anos) e de Multimídia (durante 2 anos) da mesma instituição. Antes, coordenou o curso técnico em Multimídia do Liceu de Artes e Ofícios (2009-2010). Atualmente é diretor-executivo da TeleObjetiva e professor da FAPCOM.

TeleObjetiva
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