Futebol, Política, Rádio e Televisão: a biografia do ‘Marechal da Vitória’.

Paulo Machado de Carvalho (1901-1992) foi um importante empresário e dirigente de Rádio, TV e Futebol. Seu nome batiza o estádio municipal da cidade de São Paulo, o Pacaembu. Sua ligação com o futebol se deu como dirigente do São Paulo Futebol Clube (SPFC) e como chefe da delegação brasileira nas copas do mundo de 1958 e 1962, ambas vencidas pelo Brasil.

O Marechal da Vitória

Escrito por Tom Cardoso e Roberto Rockmann, o livro é a biografia do empresário Paulo Machado de Carvalho (1904-1992), que foi dirigente do São Paulo Futebol Clube, chefe da delegação brasileira nas copas do mundo de 1958 e 1962 e sócio da Rádio e TV Record, de São Paulo.

Em 1953 o grupo lançou a TV Record, canal 7 de São Paulo. Os dois sócios tinham visões muito diferentes, e o investimento em TV escancarou as divergências: João Batista do Amaral era um cara antenado e pretendia ampliar os veículos para além de São Paulo. Paulo Machado era conservador e considerava que bastava atuar em São Paulo. Pipa era desorganizado e gastão; Paulo era supersticioso, metódico e controlado. O lançamento da TV Rio, canal 13 do Rio de Janeiro, marcou um novo acordo entre os sócios – e , de certa forma, o futuro do grupo Record. João Batista ficaria com 100% da TV Rio e manteria os 50% no grupo Record, sem intervir na gestão dos negócios. Paulo Machado não concordava com a compra do prédio no qual o cunhado pretendia instalar a TV Rio.

Outra divergência relatada no livro estava no fato de João Batista do Amaral pretender transformar a Record e a Rio em uma rede nacional de TV, à exemplo do que ele havia visto nos Estados Unidos. A TV Rio chegou a implantar uma rede com 13 emissoras espalhadas entre os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal e mantida com equipamentos precários adquiridos nos Estados Unidos. A Record até participou da iniciativa, mas seus dirigentes não eram muito favoráveis a ideia.

O livro é fruto de de uma boa pesquisa conduzida pelos autores. Retrata as conquistas do SPFC, as divergências de Paulo Machado com João Havelange (1916-2016), presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, embrião da Confederação Brasileira de Futebol – CBF), e as relações da Rádio e da TV Record com a Federação Paulista de Futebol (FPF).

Ainda referente à Record, os autores recriam em sua narrativa a história da rádio e da TV até a década de 1960. É retratado os investimentos da família Machado de Carvalho na música brasileira e em trazer artistas internacionais para se apresentar no Brasil (iniciativa do primogênito de Paulo Machado), a briga da Record com a FPF, que motivou o surgimento do programa Jovem Guarda (e elevou seus apresentadores, Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo Carlos, à condições de ídolos da juventude) e os incêndios que castigaram a emissora. Paulo Machado era contrário a fazer seguro de seus negócios: essa insistência em não segurar suas empresas e os vários incêndios que a Record enfrentou em 1960, 1966 e 1969 foram cruciais para agravar a crise financeira do grupo e a TV perder mercado para as concorrentes.

O incêndio que a Record sofreu em 1966 em sua sede, localizada em Moema, obrigou a emissora a improvisar uma programação às pressas e ao vivo. Surgia a Equipe A, considerada a mais criativa equipe de produção da TV na década de 1960. A Record tinha um elenco primoroso e a equipe A soube aproveitar os talentos disponíveis. Após o incêndio nos teatros da Record, em 1969, a empresa se vê em dificuldades financeiras. Seus principais artistas acabam aceitando propostas das concorrentes, em especial da TV Globo, que estava em franco crescimento na época. O veículo que dá sobrevida ao grupo é a Rádio Record: a rádio ainda mantinha uma audiência fiel e ao trazer para São Paulo o comunicador Zé Bettio, alcançou a liderança de audiência no mercado paulistano de Rádio AM.

Deste ponto em diante a obra retrata mais a trajetória da Rádio e da TV Record e menos a história do biografado. Tal fato não tira o mérito do livro e é compreensível: com cerca de 70 anos, Paulo Machado de Carvalho havia passado o comando das empresas para seus filhos. Dava expediente na Record, mas não participava das decisões do dia a dia. É retratada a venda dos 50% da Record que pertencia a João Batista do Amaral (em 1971) para a Siderúrgica Gerdal e posteriormente para Silvio Santos (que havia tentado comprar antes da Gerdal fechar o negócio), a relação entre a família Machado de Carvalho e o Grupo Silvio Santos na condução da Rádio e TV Record e as tentativas de venda das emissoras ocorridas na década de 1980: Silvio Santos havia conseguido montar o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) em 1981 e e era, ao mesmo tempo, sócio e concorrente da Record.

Os autores fazem uma metáfora interessante no título do capítulo final do livro: “da Record ao Reino de Deus”. A compra do grupo por Edir Macedo, líder religioso da Igreja Universal do Reino de Deus, é narrada em paralelo aos últimos dez anos do biografado. A efetivação da venda ocorre em 1990, dois anos antes de sua morte. Com a Record mergulhada em dívidas e com um sócio que precisava se livrar da Record para equilibrar as contas do SBT, a venda era o ponto final de uma trajetória marcada por muitos acertos e por erros que custaram o futuro da empresa.

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